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2012-05-05

Um planeta ameaçado: a ciência perante o colapso da biosfera

Um planeta ameaçado: a ciência perante o colapso da biosfera é o nome livro de Miguel Almeida publicado pela Esfera do Caos em 2006. Nesta obra o autor apresenta uma síntese do pensamento epistemológico da modernidade e da pós-modernidade, procurando esclarecer o contributo da ciência na instauração e na resolução da crise social e global do ambiente. Apesar de pouco frequente, não deixei de sentir alguma hermeticidade linguística que poderá dificultar a interpretação ao leitor mais leigo e desprevenido; no entanto, o autor aborda a questão numa perspectiva actual que procura ser simultaneamente pragmática e abrangente nas diferentes racionalidades que toca.
Apontando diferentes vértices da geometria da crise ecológica, ressalva a importância do conhecimento científico e tecnológico na sua resolução. Toca outras áreas epistémicas como a política e as ciências sociais e económicas; mas, parece esquecer o papel fundamental que as mundividências filosóficas e religiosas têm na mediação da interacção entre a humanidade e o mundo não-humano. Notei a ausência de discussão noutros campos epistémicos como as artes ou as tradições religiosas e espirituais; ausência aceitável se, tal como título deixa adivinhar, a ciência perante o colapso da biosfera, for o grande tema de discussão. Parece-me, contudo, importante salientar o papel fundamental que estas áreas epistémicas têm na mediação das relações da humanidade consigo própria e da humanidade com o mundo não-humano.
Depois de iniciar e aprofundar a discussão acerca da cientificidade da própria ciência e das diferentes vozes que se fizeram (e fazem) ouvir dentro e fora da comunidade científica, Miguel Almeida termina a sua dissertação com evocação do posicionamento schrödingeriano acerca do valor desta área do conhecimento. De acordo com o escritor, para Erwin Schrödinger o valor do conhecimento científico não se esgota no utilitarismo e no instrumentalismo imediatos e mediáticos; o seu verdadeiro valor consiste no propósito mais profundo da ciência, que “é a descoberta de nós próprios, algo que só estará realmente completo na medida do reconhecimento e da compreensão da nossa ligação ou união com o todo” (p. 196). Miguel Almeida sublinha, assim, a importância das dimensões filosófica, espiritual, religiosa (no sentido latino do religare) e metafísica que está subjacente ao empreendimento científico: o religare (latino) ou o yôga (sânscrito) da humanidade ao resto do Universo.
Trata-se de uma obra a não perder. Para os mais “batidos” uma excelente síntese, para os mais leigos uma completa e exaustiva abordagem da natureza da ciência e da sua relação social e ecológica.
Recomendo a sua leitura, em particular a todos os que se preocupam com as áreas do ambiente ou com a construção do conhecimento científico e, em particular, aos professores de ciências físicas e naturais que daqui poderão tirar alguns motes reflexivos acerca do papel da ciência e dos propósitos do seu ensino-aprendizagem numa sociedade global representada pela crise social e global do ambiente.

Boas leituras.

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