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2012-05-17

A lógica do capital contada pelos patos (Donald e Patinhas)

 Estava a clicar nos dedinhos levantados do facebook quando, na página do Center for the Advancement of the Steady State Economy, me deparei com esta tira de BD. Trata-se de uma tira de uma série de livros de BD do Pato Donald do final dos anos 40, concebida por Carl Barks. Viciado, como ando, em análise crítica de tudo e mais alguma coisa, não resisti a lançar o olhar cínico nesta elucidativa tira de papel (agora digital). De facto é um retrato fiel da ideologia capitalista estado-unidense que dominou e domina a economia mundial.
Começo pela figura do Tio Patinhas. Como a muitos de nós ainda se lembram, o velho pato avarento possuía uma caixa forte cheia de dinheiro que era tudo para si. O único objetivo da sua fútil existência era angariar mais e mais dinheiro para aumentar a sua fortuna pessoal, não raras vezes, como denota a tira, às expensas daqueles que não se podiam defender. Este personagem, cujas iniciais do seu nome original (Uncle Scrooge — U.S.) coincidem com a da nação sua pátria, reifica o espírito capitalista estado-unidense tão fielmente que ainda hoje, passados mais de 60 anos, continua a fazer sentido. O seu nome de família, Scrooge McDuck, denunciado alguma presunção aristocrática que é negada aos outros anatídeos personagens que povoam estas histórias.
O Pato Donald, personagem cujo tradução do nome se manteve (quase) fiel ao original Donald Fauntleroy Duck, é geralmente apresentado como um trapalhão de génio explosivo incapaz de organizar a sua vida. Estas características  impedem-no de atingir uma estabilidade financeira que lhe permita estabelecer família com a sua amada Margarida (Daisy Duck no original), apesar do amor incondicional que esta lhe dedica. A sua incompetência e mau feitio mantêm-no financeiramente refém do seu tio para quem tem de trabalhar e de quem recebe pouco dinheiro e nenhum respeito.
Representa-se, em literatura destinada aos leitores mais jovens, uma sociedade de classes legitimada pelo darwinismo social onde apenas os mais "aptos" têm o direito ao conforto e ao privilégio de tomar decisões; os outros são apenas mão-de-obra. Alguns considerarão que estou a ir longe de mais, mas o facto de Daisy ser, sistematicamente, apresentada como a, incondicionalmente apaixonada, namorada de Donald, secundariza o personagem ao mesmo tempo que secundariza o seu género; os protagonistas das histórias são geralmente patos masculinos.
Nesta tira, na segunda quadrícula, vemos que Donald foi vitima de um feitiço vudu que lhe foi lançado quando acompanhava o seu tio numa exploração em África. Esta situação não é fortuita, como nos mostram as duas falas do Tio Patinhas. Scrooge McDuck descreve aos seus sobrinhos, como foi que o seu tio Donald se viu naquela situação emabraçosa.
O velho pato queria uma terra em África para instalar uma plantação de seringueiras (árvore-da-borracha para os menos familiarizados com a terminologia). Infelizmente havia um pequeno obstáculo: essa terra era habitada por "uma tribo de selvagens ferozes que acreditavam que os seus deuses vudu valorizavam e protegiam a sua terra". O problema foi facilmente resolvido. Patinhas contratou um bando de salteadores mercenários (a mob of thugs) que perseguiu os selvagens e os empurrou para a floresta. O avarento capitalista conseguiu a terra para os seus fins, mas os selvagens, loucos de fúria, incumbiram o seu curandeiro vudu (their witch doctor) de concretizar a sua vingança através das suas feitiçarias; contudo, quem acabou por sair prejudicado foi o pobre Donald.
Não deixa de ser interessante como, em duas quadrículas de BD, se legitimam uma série de atrocidades e crimes, se ridiculariza uma população e a sua cultura e, em última instância, se atribui um papel indigno ao trabalhador assalariado. Legitima-se a apropriação de terras para alimentar uma infinita avidez por dinheiro; a expropriação agravada pelo uso da força; a contratação de mercenários; o colonialismo e a ocupação de terras no estrangeiro; a inserção de espécies exóticas (as seringueiras são oriundas da Amazónia) num ecossistema estabelecido. Legitima-se o racismo ao conceber como aceitável adjetivar a tribo africana de "selvagens ferozes"; ridicularizam-se a sua cultura e as suas crenças com "hoodooed and voodooed" do curandeiro; ridiculariza-se o próprio feiticeiro com o seu falhanço em acertar no alvo do seu feitiço; humilha-se o trabalhador que, na sua função de assalariado do capitalista, é quem sofre as consequências nefastas da sua ganância e, num extase de humilhação, valoriza-se e legitima-se o sucesso do capitalista Scrooge McDuck que, indiferente à situação de Donald, se apresenta sentado numa poltrona com uma ar visivelmente feliz com o desfecho de toda a situação. In extremis, legitima-se a educação da nova geração no injusto contexto social em que se desenrola toda a ação da história de duas formas: na própria narrativa com a história que Patinhas conta aos seus sobrinhos e na vida real através da disseminação desta mensagem junto de uma população pré-adolescente se não mesmo infantil.
Extraordinariamente sempre ouvi dizer que os livros da Walt Disney eram somente histórias divertidas; políticos e propagandistas eram as tiras de BD da crítica Mafaldinha e dos seus estereotipados amigos. Felizmente, cedo na minha vida, passei a ler as segundas em detrimento das primeiras. Talvez por isso prefira os personagens honestos e frontais.
Obrigado Quino! Também tu me ensinaste a refletir.


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