2008-06-10

Planeta Terra 2007 - National Geographic Report

Um relatório sobre o estado do planeta em 2007 feito pela National Geographic Report.
Um alerta mas também uma mensagem de esperança.


2007-08-23

Activism, Deep Ecology and the Gaian Era

Activism, Deep Ecology and the Gaian Era é um video de 2006, com aproximadamente 45 minutos, elaborado pela Earthlands: Sacred Nature Network.
Neste videocast Lyn Margulis - bióloga responsável pelo desenvolvimento da teoria da simbiogénese; Stephen Buhner - poeta e autor de diversos livros sobre o tema em questão e John Seed - activista defensor das florestas tropicais, são os três interlocutores da palestra.
Cada um dos palestrantes terá de responder a duas questões:

1 - What are the effects in your life of recognizing Gaian interconnction and inteligence as real phenomena, as expression of how the world truly functions?

e

2 - In light of this understanding of planetary interdependence, how can individuals and communities best move forward with hope in age of dramatic ecological disturbances?

As perspectivas de cada um dos interlocutores sobre a mesma questão são, não só, exclarecedoras mas também interessante fonte de reflexão passível de nos ajudar a construir a nossa gaiavidência.



John Ryan foi é o elemnto da Earthands responsável pela mediação do diálogo e pode ser contactado em jcryan@earthlands.org.

2007-08-14

Emergentismo: o fim do reducionismo?

Em Abril de 2007 Cédric Lémery deu uma conferência em Lisboa sobre o Emergentismo.
Fica aqui o resumo e o Slide Show.

Do espantoso desenvolvimento das diversas pelagens, penas e escamas que revestem os animais à multiplicidade das formas dos flocos de neve, como será possível explicar a diversidade do mundo? De acordo com a perspectiva reducionista, o mundo descreve-se pelo acção de um punhado de leis universais. No entanto, este edifício da realidade esbate-se na dinâmica das partículas elementares. Este visão fascinante do nosso ambiente, que dominou a pesquisa científica nos três últimos séculos, coloca o homem das ciências - que a compreende - no centro do universo dado que ela própria se assume como uma perspectiva universalista.

Contudo, há já algumas décadas que, da comunidade científica, se elevam vozes que contestam esta mundividência. Segundo os defensores do pensamento emergentista, as leis da física emergem a cada nível de organização da matéria: como das pequenas pinceladas de cor numa pintura impressionista emerge a profundidade de um céu crepuscular. Muitos cientistas adoptam, doravante, este paradigma e alguns vêm nele o coração da ciência do século XXI. Será que esta abordagem da realidade anuncia o requiem da perspectiva reducionista?

2007-08-03

Devour the Earth - a urgência de se tornar vegetariano

Este documentário, disponível no youtube.com, relembra-nos os problemas que o consumo massivo de produtos de origem animal tem para o planeta. Além das questões éticas que a industrialização da produção animal coloca às sociedades humanas, este filme mostra claramente qual o contributo desta actividade para a desflorestação, a libertação de gases com efeito estufa, a destruição de habitats com a consequente diminuição da biodiversidade, a poluição de solos e oceanos. O documentário defende uma adesão massiva da população mundial ao vegetarianismo como forma de resolver muitos dos sérios problemas ambientais.
Vejam vocês mesmos:

Alguns factos:
  • 38% dos cereais produzidos no mundo são para a alimentação de gado;
  • são necessários 10 kg de cereais para produzir 1 kg de carne;
  • a terra cultivável necessária para alimentar um vegetariano é menos de metade da necessária para alimentar um carnívoro;
  • um país como a Grã-Bretanha tem capacidade para alimentar 250 milhões de veganos;
  • se o mundo inteiro se alimentasse como um americano médio, o planeta apenas poderia sustentar menos de metade da população mundial;
  • a destruição das florestas tropicais faz-se a uma taxa de 164 000 Km2 por ano;
  • 71% de toda a área desflorestada na Costa Rica foi convertida em pastagens;
  • o Nepal perdeu mais de metade da sua área florestada para a criação de gado;
  • 18% das emissões anuais de metano (CH4) provêm da criação de gado;
  • uma só vaca pode produzir 23 toneladas de excrementos por ano;
  • estudos mostram que a incidência de problemas cardíacos (principal causa de morte nos EUA e no Reino Unido) é 30% inferior em vegetarianos;
  • uma dieta vegetariana reduz significativamente os riscos de desenvolvimento de cancro - nomeadamente cancro da mama e cancro do colón.

2007-03-03

A Controversia na Educaçao

Este é o resumo do meu último artigo publicado na revita electrónica: Interacções.

Fica aqui o resumo. O texto completo pode ser consultado através da hiperligação no final deste post.
Vivemos tempos de insegurança e incerteza face ao futuro. Não se trata de uma incerteza social mas de uma incerteza ecológica que põe em causa a sobrevivência de inúmeras espécies incluindo a nossa. No nosso quotidiano somos confrontados com situações tão críticas como as mudanças climáticas, o recurso aos transgénicos, a energia nuclear, a desflorestação, a fome e a pobreza extrema ou a sobrepopulação do planeta. Conceitos como Desenvolvimento Sustentável e Educação para a
Sustentabilidade fazem parte da linguagem do dia-a-dia mas nem sempre os seus significados são alvo de reflexão e crítica.
Perante esta realidade social e ecológica global, a escola não pode sustentar uma atitude passiva de saberes magistrais e dogmáticos que não podem ser alvo de discussão. Não temos dúvidas que para responder a este desafio a escola tem de se reestruturar. Fazer da sala de aula um palco onde as ideias mais actuais e pertinentes sejam discutidas, reflectidas e criticadas. Só assim a escola dará um contributo real na formação de cidadãos esclarecidos, críticos e interventivos dando especial significado aos conteúdos que tem de veicular.

2007-01-21

Século XXI: Que educação? Que escola?

Foto de Center for ecoliteracy - www.ecoliteracy.org


Texto publicado no número de Janeiro de 2007 da revista Água e Cultura (p.20) www.aguaecultura.co.pt

A ciência moderna impregnou-se nos sistemas de ensino construindo mundividências materialistas, segmentadas, e reificadas de uma realidade, supostamente, distante e independente do observador que a estuda. Estas perspectivas, tendo por base as ópticas empiro-positivistas de Comte e Bacon e o racionalismo cartesiano, pressupõem a possibilidade de conhecer o mundo natural e têm por propósito o seu controlo e domínio. Em oposição a esta perspectiva, no século XX, pela mão de, entre outros, Popper, Kuhn e Feyerabend surgem as epistemologias de índole construtivista. Assim, na perspectiva ecocêntrica da ciência, esta assume o propósito compreender o mundo para (re)construir sociedades que adoptem os processos cíclicos do mundo natural em detrimento dos processos lineares, com baixos rendimentos e produtores de grandes quantidades de resíduos, característicos da antropocêntrica ciência moderna.

Os movimentos ambientalistas e ecológicos não estão isentos de responsabilidade na promoção desta mudança de paradigma que é tão urgente quanto imprescindível. O forte incentivo dado por estes sectores da sociedade aos aspectos mais inovadores do paradigma epistémico ecocêntrico, constituem um impulso fundamental à divulgação e reflexão neste novo modelo. Analisemos então algumas características da ciência ecocêntrica por oposição à sua predecessora a ciência antropocêntrica.

A ciência ecocêntrica, por oposição à inspiração mercantilista da ciência antropocêntrica, assume características promotoras da inclusão social e ecológica da humanidade enquanto indivíduo e enquanto espécie. Procura compreender o todo de forma sistémica e holística, abordando os problemas a partir da sua complexidade e assumindo a importância, mas também, a insuficiência da perspectiva analítica e redutora da ciência moderna. No paradigma ecocêntrico, o determinismo, o mecanicismo, e o behaviorismo modernos são abandonados a favor de uma perspectiva que assume a incerteza e se mostra, simultaneamente, interpretativa e crítica, reconhecendo o conhecimento como uma realidade socialmente construída. Salientamos o carácter dialógico e dialéctico da ciência ecocêntrica que promove a comunicação entre saberes tradicionalmente considerados como científicos e saberes que a ciência moderna, perante a sua visão disciplinarizada e com forte preocupações normativas em relação ao que é conhecimento científico, remeteu para as prateleiras das crenças e superstições. É neste cosmopolitismo epistémico que a ciência ecocêntrica inicia diálogos com outras áreas do conhecimento como as etnociências (conhecimentos de etnias e culturas tradicionais) ou com as filosofias orientais como é o caso do diálogo estabelecido entre a tradição budista e cientistas ocidentais provenientes de áreas do conhecimento tão diversas como a física ou a psicologia.

E a escola? Que esforço tem feito para se manter a par destas novas relações da humanidade com os saberes? Apesar de sentirmos empenho por parte dos movimentos ecológicos e de alguns cientistas da educação, parece-nos que os resultados estão muito aquém do desejado e do necessário. A estrutura espartilhada e disciplinarizada dos saberes, que caracteriza o nosso modelo escolar criado no século XIX, associada a uma cultura da competitividade fazem com que a escola se afaste cada vez mais dos propósitos de educar para a ecologia e para a sustentabilidade. É difícil desenvolver uma ecoliteracia e uma consciência social de elevado nível num contexto competitivo e exclusivo como é o da escola portuguesa como bem o denotam, as estatísticas do insucesso académico e do abandono escolar em Portugal. Esta situação agrava-se quando nos apercebemos das concepções modernas que alguns professores manifestam acerca conhecimento científico e das perspectivas ingénuas e antropocêntricas da sustentabilidade que estes apropriaram. Só assim podemos compreender que a educação ecológica surja, aos olhos de alguns docentes, como mais uma sobrecarga, aos já pesados currículos nacionais, que tem de ser leccionada. Numa atitude de incompreensível adormecimento pedagógico continuamos a formar especialistas analíticos que não possuem qualquer noção realista da situação global. Como afirma Boaventura de Sousa Santos, estamos a formar ignorantes especializados.

David Orr, adverte-nos que “toda a educação é educação ambiental” nem que seja pela ausência. Quando ensinamos física, economia, ou qualquer outra área do conhecimento (científico) e não fazemos a ligação destes saberes ao estado actual do mundo estamos a passar a mensagem de que não existe qualquer relação entre os conhecimentos. Urge então educar para a ecologia global, mas não apenas os jovens estudantes. Uma linha de acção fundamental consiste na reciclagem conceptual que a sociedade portuguesa tem de fazer e na qual os professores deverão estar sentados na fila da frente, para que a educação na nossa escola assuma, definitivamente, contornos ecológicos.

2007-01-01

MMVII FELIX...


2007 poderá ser o ano mais quente de sempre! Assim diz Phil Jones, director da Unidade de Investigação do Clima da Universidade de East Anglia. A notícia completa pode ser consultada em http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1281205.
No entanto, apesar dos contínuos alertas e das evidencias registadas, todos continuamos a agir como se nada se passasse. Por vezes penso mesmo que não há nada a fazer. Continuamos em busca do prazer imediato, numa atitude de um hedonismo egocentrado e suicida em que apenas conta o que cada um tem a ganhar... 2007 (e seguinte) precisa de uma nova cultura, uma cultura que valorize a relação da humanidade com Gaia, a beleza de uma flor, de um rio selvagem ou de um pôr-do-sol sereno. Um cultura que valorize a fúria da tempestade, o azul do céu e do mar, e o milagre da vida que testemunhamos todos os dias.
Uma cultura da contemplação exterior e interior, uma cultura que valorize o animal humano enquanto parte integrante de um ser imenso que, por agora, se parece limitar a Gaia mas que, começo a suspeitar, se poderá alargar a todo o Universo.
Uma cultura que compreenda que só HÁ UMA VIDA, da qual apenas somos constituintes e que temos de a proteger.
Uma cultura que, sendo humanista, transcenda o especismo do Homo Sapiens Sapiens e compreenda que apenas através dos outros - humanos e não-humanos - nos podemos encontrar a nós próprios.

Sarva Magalam.

2006-11-14

Fenómenos



La lune se lève
dans le ciel pur de la nuit,

Son reflet apparît
sur la surface étale du lac

Mais la lune n'est pas dans le lac,
n'est-ce pa?

Sachez qu'il en est ainsi
de tou les phénomènes.


Poèmas Tibetains de Shabkar - Traduits par Matthieu Ricard

2006-10-28

Budismo e sustentabilidade...


Foi publicado, há algumas semanas atrás na revista Interacções, um artigo intitulado Estabelecendo pontes entre o ocidente e o oriente: um contributo da perspectiva budista na educação para a suatentabilidade.

Fica aqui o resumo e o link para o PDF.

Resumo
O diálogo entre saberes constitui uma característica fundamental da construção do conhecimento no século XXI. Neste documento, numa tradição iniciada há cerca de trinta anos, procuramos pôr em conversa as perspectivas da ciência ocidental e do budismo mahayana tendo por objectivo perceber qual o contributo que esta tradição filosófica pode dar para o desenvolvimento de sociedades sustentadas, e na mediação da relação da humanidade com o ecossistema global e consigo própria. Procedemos à discussão recorrendo a alguns conceitos fundamentais da mundividência budista e relacionando-os com Princípios do Movimento Ecologia Profunda, de Arne Naess, e com a Teoria de Gaia, de James Lovelock. Por fim analisamos alguns frutos deste
diálogo ao nível da educação para a sustentabilidade.

Sarva Magalam

2006-09-02

Parabéns Resurgence

Acabaram as férias mas as alegrias continuam...
Este mês celebrasse o quadragésimo aniversário da Resurgence - www.resurgence.org - uma das primeiras revistas de ecologia e defesa da Terra surgidas no seguimento da tomada de consciência iniciada, em 1962, pelo Silent Spring de Rachel Carson.
Staish Kumar, o seu actual director, escreve no habitual intróito welcome: "Nos últimos 40 anos o paradigma mudou. Hoje o jornal The Independent publica trabalhos de capa sobre o ambiente, a promotora do consumismo Vanity Fair proclama «Verde é o Novo Preto (Green is the New Black)» e até mesmo o Partido Conservador do Reino Unido adoptou o moto, nas suas campanhas para as eleições locais, «Vote Azul para Conseguir o Verde (Vote Blue, Get Green)». Estes são sinais de optimismo. Se a tendência se mantiver afavor da sustentabilidade ambiental então, uma mudança nas prioridades dos políticos e das suas políticas seguir-se-á. Mas para que tal aconteça os grupos verdes e os eco-activistas têm de unir esforços e trabalhar juntos".

Talvez seja esta a mensagem mais importante que nós, defensores da Mãe Terra, possamos ouvir... a diferença traz a diversidade mas o propósito é sempre o mesmo... a defesa de GAIA.

Abraços e um bom ano de trabalho.

2006-07-17

Um planeta ameaçado: a ciência perante o colapso da biosfera

Um planeta ameaçado: a ciência perante o colapso da biosfera é o nome livro de Miguel Almeida publicado pela Esfera do Caos e datado de 2006. Nesta obra o autor premeia-nos com uma síntese do pensamento epistemológico da modernidade e da pós-modernidade, procurando esclarecer o contributo da ciência na instauração e na resolução da crise social e global do ambiente. Apesar de pouco frequente, não deixamos de sentir alguma hermeticidade linguística que poderá dificultar a interpretação ao leitor mais leigo e desprevenido. No entanto, o autor aborda a questão numa perspectiva actual que procura ser simultaneamente pragmática e abrangente nas diferentes racionalidades que toca. Aponta-nos diferentes vértices da geometria da crise e ressalva a importância do conhecimento científico e tecnológico na sua resolução. Aporta outras áreas epistémicas como a política e as ciências sociais e económicas mas, parece esquecer o papel fundamental que as mundividências têm na mediação da interacção entre a humanidade e o mundo não-humano. Notamos a ausência de discussão em outros campos epistémicos como as artes ou as tradições religiosas e espirituais. Ausência perfeitamente aceitável se e, tal como título indica, a ciência perante o colapso da biosfera, for o grande tema de discussão. Torna-se, porém, importante salientar o papel fundamental que estas áreas epistémicas têm na mediação das relações da humanidade consigo própria e da humanidade com o mundo não-humano. Depois de iniciar e aprofundar a discussão acerca da cientificidade da ciência e das diferentes vozes que se fizeram (e fazem) ouvir dentro e fora da comunidade científica, Miguel Almeida termina a sua dissertação com evocação do posicionamento schrödingeriano acerca do valor da ciência. Para Erwin Schrödinger, o valor do conhecimento científico não se esgota no utilitarismo e no instrumentalismo mediáticos mas o seu verdadeiro valor consiste no propósito mais profundo da ciência, que “é a descoberta de nós próprios, algo que só estará realmente completo na medida do reconhecimento e da compreensão da nossa ligação ou união com o todo” (p. 196 do livro em questão). Nesta perspectiva, Miguel Almeida realça todo a carga filosófica, espiritual, religiosa (no sentido latino do religare) e metafísica do empreendimento científico: o religare latino ou o yoga sânscrito da humanidade ao resto do Universo. Trata-se pois de uma obra a não perder. Para os mais “batidos” uma excelente síntese, para os mais leigos uma completa e exaustiva abordagem da natureza da ciência e da sua relação social e ecológica. Recomenda-se a sua leitura em particular a todos os que se preocupam com as áreas do ambiente ou com a construção do conhecimento científico e, em particular, aos professores de ciências físicas e naturais que daqui poderão tirar alguns motes reflexivos acerca do papel da ciência e dos propósitos do seu ensino-aprendizagem numa sociedade global representada pela crise social e global do ambiente.
Boas férias.

2006-06-29

Se todos vivermos bem, todos estaremos bem – Satish Kumar

Satish Kumar

Satish Kumar é o editor chefe da revista Resurgence - http://www.resurgence.org - e em cada número pública um pequena crónica. O texto que apresentamos de seguida é uma tradução do artigo do n.º 237 (Julho/Agosto 2006) da referida revista e o original pode ser encontrado em
http://www.resurgence.org/2006/kumar237.htm.
Boas leituras.

Não só o mundo da política e dos negócios, mas também muitos dos movimentos ambientalistas são motivados pelo medo. “Devemos cuidar do nosso planeta senão!...” Temos de reduzir as emissões de carbono, senão o aquecimento global ditará o fim da civilização.” Temos de usar menos petróleo senão ficaremos sem reservas.” Estes são os medos que estão por detrás de muito do pensamento ambientalista. Muitos dos livros publicados nos últimos meses suportam-se na premissa de que o fim do mundo é inevitável a menos que mudemos os nossos hábitos.
O medo parece ditar as nossas vidas, as nossas políticas e o nosso mundo. O medo do terrorismo, o medo da morte, o medo do envelhecimento, da solidão, da doença, de sermos atacados e violados: medo, medo, medo.
Devido ao medo construímos armas nucleares e depois, para nos protegermos das armas nucleares que construímos, construímos bunkers. Devido ao medo da escassez buscamos o crescimento económico; o crescimento económico provoca o aquecimento global; para nos salvarmos do aquecimento global queremos cobrir a Terra de aerogeradores ou centrais termonucleares que reduzem área de terra disponível para o cultivo, o que causa a escassez… O kármico ciclo vicioso do medo repete-se até à exaustão.
Como afirmou Albert Einstein, não se pode resolver um problema com a mesma disposição mental que, primeiramente, o originou.
O medo é a causa dos problemas ambientais, que não podem ser resolvidos por temor de uma catástrofe global.
No passado costumávamos dizer, “Porta-te bem, senão vais para o inferno.” Nos nossos dias dizemos, “Sê amigo do ambiente, ou a civilização sucumbirá.” O medo é uma má razão para nos tornarmos em bons ambientalistas. Existem melhores razões para nos preocuparmos com a Terra. Viver em harmonia com a Terra é bom por si mesmo. Estilos de vida sustentáveis, frugais e compassivos são justos para todos os seres – humanos e não-humanos. Uma cultura de não-violencia que respeite e mostre reverência perante a vida, tem de fazer parte das nossas estruturas psicológicas. Mesmo se o aquecimento global não fosse uma realidade premente e as reservas de petróleo não se estivessem a esgotar, não deveríamos destruir a vida porque esta é sagrada. E, através da gratidão à vida, deixamo-nos encantar, inspirar e ser felizes. Cuidar da comunidade Terrestre, que inclui a comunidade humana, é uma questão de gosto e alegria, e não uma questão compulsiva. Ecologia ou ambientalismo é uma forma de vida, não uma gestão de crise. As questões do aquecimento global, população, agricultura orgânica e terrorismo internacional são assuntos que necessitam de ser enfrentados e compreendidos no contexto do valor intrínseco dos estilos de vida ecológicos, e não como respostas a histórias assustadoras.

2006-05-27

A Civilização da Selva

Por Vandana Shiva*

Sim, é possível assegurar que os tigres, as tribos, as árvores e todas as demais formas de vida sejam protegidas e possam continuar sua viagem evolutiva em paz e harmonia, escreve neste artigo, exclusivo para o Terramérica, a ativista indiana Vandana Shiva.


NOVA DÉLHI.- Até há pouco tempo, os indianos se identificavam como Aranya Sanskriti, ou seja, a Civilização da Selva. Segundo o poeta Rabindranath Tagore, a peculiaridade da cultura indiana consiste em sua definição da vida na selva como a mais alta forma de evolução cultural. Em "Tapovan", Tagore escreveu que "a civilização indiana se caracteriza por situar suas fontes de regeneração – material e intelectual – nas selvas e florestas, não na cidade. A cultura que surgiu da selva sofreu influência de diversos processos de renovação e reafirmação da vida, que estão sempre atuando no ambiente selvagem e que variam de uma espécie para outra, de uma estação para outra e em sua aparência, seu som e seu cheiro".

Atualmente temos problemas para proteger nossos sistemas essenciais de apoio á vida e ao coração de nossa identidade como civilização, porque sacrificamos "o princípio unificador da vida em diversidade, do pluralismo democrático, que havia se convertido no princípio da civilização indiana". O fizemos em nome das categorias reducionistas do pensamento ocidental, que desprezam a coexistência. O tigre se opõe à tribo, a tribo se opõe às árvores. A dependência mútua e a afinidade estão sendo substituídas pelo antagonismo, pela polarização e pela exclusão que ameaçam a todos: as tribos, os tigres e a biodiversidade das selvas e florestas.

Esta polarização entre a proteção das espécies humanas e não humanas em nossas selvas fica vidente em dois intensos debates que atrairam a atenção da nação há poucos meses: um sobre o crescente desaparecimento na Índia dos tigres, cujo número caiu de 40 mil há um século para menos de três mil atualmente, e outro sobre as tribos registradas (às quais a Constituição indiana reconhece direitos específicos) e a lei de Reconhecimento dos Direitos da Selva. As tribos, que compreendem pouco mais que 8% da população indiana, foram deslocadas de suas terras nas selvas para dar lugar a represas, projetos de mineração e rodovias. As leis para a conservação da selva da época colonial da Índia se baseavam nos preconceitos ocidentais de que as espécies humanas e as não humanas não podem coexistir, de que os parques devem estar sem gente e que os assentamentos humanos não devem ter biodiversidade.

Esta é a premissa da teoria da Terra Nullius, que norteou a colonização. De acordo com esse paradigma da "propriedade", se a terra e as selvas são conservadas em seu estado original, ou seja, que não tenham sido "desenvolvidas", não pertencem aos seus habitantes originais. Quando colonizou a Austrália, o governo britânico fez uso dessa teoria para justificar o confisco de terras dos indígenas que ali viviam há pelo menos 60 mil anos. Os colonizadores britânicos não reconheciam que a terra estava sendo usada porque os indígenas a utilizavam de uma maneira diversa. Assim, foram ignorados seus direitos. Entretanto, como determinou em 1992 a Alta Corte no famoso Caso Mabo, o não-reconhecimento não extingue os direitos. A Lei sobre o Direito dos Nativos redigida pela Austrália em 1993, assim como a proposta Lei Tribal da Índia, agora reconhece a continuidade dos direitos dos aborígines.

As tradições indígenas da Índia se baseiam na diversidade, no pluralismo, na multifuncionalidade e na não-exclusividade. A lei de reconhecimento dos direitos tribais fortalecerá a proteção das selvas ao proporcionar segurança legal aos verdadeiros guardiões de nossa natureza. O sustento econômico baseado na conservação do meio mantém tanto as tribos quanto as selvas. E se hoje se empobreceram, não é porque a biodiversidade e o sustento baseado no uso tribal tradicional do meio selvagem não requer riqueza, mas porque forças comerciais externas se apropriaram dessa riqueza.

Em "The Agricultural Testament" (O Testamento Agrícola), Sir Albert Howard escreveu: "Na agricultura da Ásia nos encontramos diante de um (antigo) sistema camponês de cultivo da terra que, no essencial, se estabilizou muito cedo no continente. O que hoje está ocorrendo nos pequenos campos agrícolas da Índia e da China, já ocorreu há muitos séculos. As práticas agrícolas no Oriente superam a prova suprema e já são tão permanentes quanto as da selva primitiva, das pradarias e dos oceanos".
Estes princípios de produção tradicional podem ser integrados com um manejo diversificado e multifuncional das florestas, que conserve as diversas espécies e proteja tanto a selva quanto o sustento de sua gente. Podemos, se nos preocupamos com isso, garantir que os tigres, as tribos, as árvores e todas as outras formas de vida sejam protegidas e possam continuar sua viagem evolutiva em paz e harmonia. Se fracassarmos, porque nosso olhar estreito nos cega e não nos permite ver quais são nossos mais amplos deveres, acabaremos por destruir os fundamentos de nossos sistemas de vida.

* A autora é escritora e defensora dos direitos da mulher e do meio ambiente.

2006-05-20

Valor intrínseco

O MEP afirma que as formas de vida e os ecossistemas possuem valor intrínseco que é independente do seu valor usabilista reconhecido pela espécie humana. Um aspecto interessante desta questão é o significado que este conceito assume em contextos socioculturais diversos. Assim, o valor intrínseco de uma forma de vida ou de um ecossistema está directamente relacionado com questões éticas e de valor. Estes aspectos estão, frequentemente, relacionados com as convicções espirituais, metafísicas ou religiosas do indivíduo ou da sociedade em questão.
A atribuição de valor intrínseco a um ecossistema ou a uma forma de vida é, com certeza, diferente quando vista da perspectiva de um budista, de um cristão ou de alguém com mundividências seculares. Assim, se para um cristão o valor intrínseco de uma determinada forma de vida, surja ela na forma de indivíduo, espécie ou ecossistema, estará, eventualmente, directamente relacionada com a obra de Deus e com o acto da Criação. O mesmo argumento mostra-se válido para um indivíduo com mundividências fundamentadas nas duas outras religiões monoteístas: o islamismo e o judaísmo. No entanto, só muito dificilmente, um budista agnóstico ou um secular ateu, poderão partilhar da mesma convicção metafísica que o cristão. No caso do budista, o valor intrínseco da forma de vida existe porque estes fazem parte de um todo impermanente e interdependente do qual a sua consciência, também ela impermanente e interdependente, é parte integrante. Para o ateu secular, podemos encontrar justificação para a atribuição de valor intrínseco à realização da capacidade, do mundo natural, de gerar vida e equilíbrio que, além de frágil, é simultaneamente uma manifestação da maravilhosa capacidade de auto organização do Universo.
O que não pode ser tomado por valor intrínseco, independentemente da frequente confusão, é a beleza estética com que muitos ecologistas olham o mundo natural. A beleza e a maravilha que sentimos quando percepcionamos, através dos nossos sentidos, uma paisagem virgem, é tão real quanto um sentimento o pode ser. Não é isso que está aqui em questão. A dificuldade reside na confusão feita na percepção dessa paisagem. O inegável valor estético que a paisagem tem quando admirada por um humano não é intrínseco. É relacional e, consequentemente, usabilista. Esta atribuição e valor só existe na sua relação com o humano e enquanto este se deixar (conseguir) maravilhar pela paisagem. Finda esta capacidade termina, também, o valor atribuído à paisagem.
Há dois aspectos que nos parecem particularmente importantes de ressalvar. O primeiro aspecto prende-se com o sublinhar o carácter transcultural do MEP. O segundo aspecto refere-se à importância que este movimento atribui à discussão e negociação de significados que permite aos seus diversos apoiantes construírem mundividências simultaneamente, suportadas na sua cultura natal e na (re)construção dos saberes de outras culturas que não a sua. O MEP além de se mostrar como uma alternativa ecológica séria e viável, mostra-se também como um movimento promotor da paz e da solidariedade entre os diferentes povos e as diferentes culturas.

2006-05-08

Autobigraphy in five chapters

Sogyal Rinpoche


Chapter One
I walk down the street.
There is a deep hole in the sidewalk.
I fall in.
I am lost...I am hopeless.
It isn’t my fault.
It takes forever to get out.

Chapter Two
I walk down the same street.
There is a deep hole in the sidewalk.
I pretend I don’t see it.
I fall in again.
I can’t believe I’m in the same place.
But it isn’t my fault.
It still takes a long time to get out.

Chapter Three
I walk down the same street.
There is a deep hole in the sidewalk.
I see it is there.
I still fall in... it is a habit.
My eyes are open.
I know where I am.
It is my fault.
I get out immediately.

Chapter Four
I walk down the same street.
There is a deep hole in the sidewalk.
I walk around it.

Chapter Five
I walk down another street.


by Sogyal Rinpoche
published in Resurgence, 235

2006-05-07

Ecofeminismo: dando espaço ao yin


O vocábulo ecofeminismo surgiu pela mão de Françoise d’Euabonne com o propósito de estabelecer relações entre os movimentos feministas e a ecologia.

Na perspectiva ecofeminista a degradação ambiental, a destruição maciça dos recursos naturais, os problemas sociais e económicos e o excesso de população, entre outros; são problemas causados por uma actuação predominantemente patriarcal que além de procurar dominar o mundo natural tem, também, a pretensão dominar e subjugar a Mulher. Assim, a luta pela libertação da Mulher e a luta pela libertação da Natureza são duas faces da mesma moeda. São a luta pelo restabelecer do equilíbrio entre o feminino e o masculino, entre o yin e o yang se quisermos utilizar a terminologia taoista.

Na realidade, não podemos negar que - sem qualquer reivindicação de exclusividade - a sociedade ocidental, baseada no patriarcado de inspiração judaico-cristã, tem relegado a mulher para um segundo plano no que respeita aos seus direitos e à sua intervenção social. Também não podemos negar que o paradigma antropocêntrico que assume pretensões de domínio do mundo natural surge na mesma sociedade e que os dois domínios têm características comuns.

Alguns activistas dos movimentos ecofeministas reclamam a superioridade dos valores femininos e afirmam que as mulheres, devido à sua capacidade de gerar vida, se encontram mais próximas do mundo natural. Alguns destes activistas vão mais longe estabelecendo pontes entre a violência masculina a que frequentemente é sujeito o corpo das mulheres e a as agressões ambientais a que tem sido sujeita o corpo de Gaia. Independentemente da nossa posição mais ou menos crítica a algumas facções destes movimentos, é indubitável o domínio patriarcal que vigora nas sociedades actuais. Se observarmos as sociedades escandinavas, onde as Mulheres assumem papéis de destaque, apercebemo-nos que as preocupações ecológicas estão mais presentes e que as agressões ao ambiente são em menor número. Isto poderá surgir alguma relação entre a protecção ecológica e os regimes mais equilibrados no que respeita ao yin yang.

Num país em que os cargos políticos estão sujeitos a quotas para dar lugar às mulheres, urge restabelecer a harmonia dos opostos. Dar espaço ao yin, nesta sociedade patriarcal, para que os equilíbrios se estabeleçam e os géneros, as espécies e os ecossistemas se harmonizem.

___________________________________

Todo o ser traz sobre si a obscuridade
e aperta nos braços a claridade:
o sopro indistinto constitui a sua harmonia.

Lao Tse – Tao Te King

2006-05-04

The Sun











Have you ever seen
anything
in your life
more wonderful
than the way the Sun,
relaxed and easy
floats towards the horizon

and into the clouds or the hills,
or the rumpled sea,
and is gone –
and how it slides again

out of the blackness,
every morning
on the other side of the world,
like a red flower

streaming upward on its heavenly oils,
say, on a morning in early summer,
at its perfect imperial distance –
and have you ever felt for anything
such wild love –
do you think there is anywhere, in any language,
a word billowing enough
for the pleasure
that fills you,
as the sun
reaches out,
as it warms you

as you stand there,
empty-handed –
or have you too
turned from this world –
or have you too
gone crazy
for power,
for things?

MARY OLIVER


from New and Selected Poems,Volume 1, published by Beacon Press

2006-04-29

Schumacher college - msc in Holistic Science

Schumacher college - msc in Holistic Science: O Schumacher College, em parceria com a Universidade de Plymouth, promove o primeiro programa de postgraduação em ciência holística do mundo. Este programa, com a duração de um ano, explora novas metodologias transdisciplinares que têm evidenciado sucesso ao explicar o comportamento dos sistemas naturais. Estas perspectivas reconhecem que os sistemas têm propriedades emergentes que descrevem suas características como um todo e que estas propriedades estão condicionadas, mas não determinados, pelas partes constituintes do sistema. O curso oferece metodologias que vão além do reducionismo e procuram compreender a dinâmica dos sistemas, como um todo, que são explorados em diversos níveis, dos organismos individuais às organizações, e dos ecossistemas à Terra. Integrando as aproximações qualitativa e quantitativa que incluem, para o exemplo, as teorias do caos e de complexidade, o computador que modelam, a percepção intuitiva e o inquérito cooperativo, os estudantes desenvolvem uma compreensão holística destes sistemas e aprendem-na trabalhar criativamente com eles.

2006-04-25

Níveis de ecoliteracia


Niveis de ecoliteracia*
(clique na figura para ampliar)

Com o propósito de simplificar a classificação e a sistematização analítica construíram-se quatro níveis de ecoliteracia com características específicas que vão desde as abordagens superficiais ao questionamento profundo, defendido pelo MEP. No quadro anterior podemos ver os quatro níveis a que nos referimos bem como algumas das sua principais características.

O quadro apresentado sugere uma enunciação crescente do conceito de ecoliteracia em que cada nível se vai tornando mais abrangente envolvendo aspectos da relação da humanidade com o mundo natural que vão muito além da mera compreensão do funcionamento dos ecossistemas. À medida que avançamos no nível de ecoliteracia começamo-nos a aperceber das dimensões do MEP e da hipótese de Gaia. Nos dois últimos níveis apresentados, encontramos as referências ao valor intrínseco da natureza e ao papel que esta tem na construção de significados do papel da humanidade na Terra, bem como a referência à perspectiva gaiana de sermos constituintes de Gaia, em vez de olharmos o planeta como a nossa residência. O residente tem características transientes e, por isso mesmo, não necessita preocupar-se com a residência. O constituinte e o lugar talham-se mutuamente numa interacção simbiótica. Neste sentido, o último nível de ecoliteracia, mais do que uma literacia, é uma procura de significados, um diálogo que o indivíduo estabelece com Gaia, na busca do sense of place que permita balizar e enquadrar cientificamente, culturalmente e ecosoficamente a acção dos indivíduos e das sociedades no desenvolvimento de práticas sustentadas.


*Adapatado de Cutter-MacKenzie, A., & Smith, R. (2003). Ecological literacy: the ‘missing paradigm’ in environmental education (part one). Environmental Education Research, 9(4), 497-524. [Versão electrónica].

2006-04-24

A transculturalidade no MEP

Diagrama de Apron

O diagrama de Apron, ilustrado na Figura, realça a forma como, através do questionamento e da interrogação profundos, o indivíduo constrói a sua mundividência, que integra o nível 1 do diagrama e é suportada nos oito princípios do MEP. A sua construção deve adaptar-se à realidade religiosa, social e cultural do indivíduo que a reconstrói à medida que o mundo, e ele próprio, se transformam e progridem. A edificação da sua ontologia - da sua metafísica individual – é deixada ao critério de cada indivíduo. Ao passo que a elaboração de políticas e normativas que, eventualmente, se concretizam nas acções e decisões particulares, é da responsabilidade das diversas sociedades e comunidades humanas. Os oito princípios que constituem a plataforma do MEP são transculturais, e situam-se no nível 2 do diagrama de Apron.
Numa reflexão acerca da diversidade de concretizações de cada um dos níveis, parece-nos que a variabilidade do nível 1 é vasta e próximo do grau de variabilidade do nível 4 onde se incluem as acções e decisões individuais. No nível 2, onde se encontram os princípios da plataforma do MEP, é onde encontramos menor variabilidade ao passo que no nível 3, onde se situam as normativas e políticas adoptadas que estarão, virtualmente, adaptadas às realidades sociais, culturais e económicas das comunidades que as constroem e adoptam, encontramos uma diversidade maior que no nível 2 mas, com certeza inferior às que encontramos nos níveis 1 e 4..
Independentemente de nos identificarmos, mais ou menos, com determinadas correntes ecosóficas, o que nos parece interessante e útil no MEP é a sua capacidade de adaptação, quer ao indivíduo quer às sociedades, permitindo a construção de ontologias ecológicas diversificadas, individuais e colectivas que conduzam as sociedades a uma relação mais harmoniosa, respeitosa e saudável entre si e com o mundo natural do qual são parte integrante e legítima.

2006-04-22

Ecosofia

O termo ecosofia e a expressão ecosofia T. foram criados por Arne Naess, pai do movimento ecologia profunda (MEP), a partir das palavras ecologia e filosofia. Por ecosofia, Naess refere-se a uma filosofia ecológica, uma mundividência ontológica de inspiração ecológica, construída pelo indivíduo que lhe permite situar filosoficamente as suas escolhas e as suas acções no âmbito da ecologia e da sua relação com o planeta. Ecosofia T, é o nome que Naess dá à sua própria ecosofia, inspirada em diversas correntes filosóficas do ocidente e do oriente. A letra T surge do termo Tvergastein, nome de uma montanha norueguesa onde o filósofo, que é também caminheiro e montanhista, gosta de passar algum tempo em comunhão, reflexão e meditação com a natureza.
Diferentes indivíduos, suportados por diferentes contextos sociais e culturais, poderão desenvolver ecosofias e mundividências ecológicas, sustentadas pelos oito princípios do MEP e pelas suas convicções culturais, religiosas, científicas… etc. O MEP aparece-nos assim como um movimento transversal às culturas onde cada cultura e, cada indivíduo, pode construir ontologias fundamentadas na defesa e conservação dos ecossistemas e na sua própria cultura.
A ecosofia T de Naess se fundamenta-se no pressuposto de auto-realização de todos os seres e da interdependência de todos os seres e ecossistemas terrestres - claramente inspirado nas correntes filosóficas do budismo mahayana. No entanto existem propostas de ecosofias alternativas, inspirada nos princípios cristãos da ética do amor e na defesa e protecção da Criação que é da responsabilidade de todos os cristãos. Uma ecosofia secular poderá ter por base os princípios ecocêntricos da ecologia científica e os conhecimentos que esta ciência construiu e continua a construir. Uma ecosofia de inspiração gaiana, baseada na teoria de Gaia de Lovelock. Cabe a cada indivíduo a construção da sua ecosofia X (onde X representa o nome que o indivíduo lhe quiser atribuir), que pode (e deve) ser inspirada nas suas crenças e convicções pessoais.
Clique aqui para ler um artigo (em inglês) de Arne Naess, onde são discutidos alguns aspectos da sua ecosofia T.

2006-04-19

Gaia, por Cédric Lémery

No dia 20 de Abril de 2005, Cédric Lémery deu uma conferência, a convite do Dharma Ling de Lisboa, intitulada Gaia, a Terra um organismo vivo?.

Cédric Lémery, um antigo aluno da l'Ecole Normale Supérieure de Lyon (admitido em 1993), Agregado de Ciência Físicas (1996), Doutor em Física da Terra (2001), é actualmente professor de Ciências Físicas e Químicas no liceu (correspondente ao ensino secundário em Portugal) e animador de conferências e estágios pluridisciplinares.

Clique aqui para descarregar o artigo em formato PDF.


Se preferir carregue no botão "play" para ver a versão portuguesa do slideshow da apresentação.



2006-04-18

O MEP visto por Stephen Harding

Stephen Harding é professor no Schumacher College, onde ensina Ecologia Profunda e Teoria de Gaia. Um artigo publicado, por este autor, em 1998 no n.º 185 da revista Resurgence, dá conta da dimensão espiritual do Movimento Ecologia Profunda.

Parece-me ser um excelente artigo onde nos apercebemos da necessidade de ultrapassar o paradigma reducionista do materialismo científico e trazer a subjectividade da experiência interior para o palco das ideias científicas do século XXI. Aqui fica o link: http://www.resurgence.org/resurgence/185/harding185.htm.

A Plataforma do MEP

O MEP (ver post de 2006-04-03) desenvolveu oito princípios básicos que constituem a sua plataforma de acção. Estes princípios deixam transparecer uma dimensão ética, que é claramente assumida pelos apoiantes deste movimento, mas não deixam de ser suficientemente generalistas para que possam ser adaptados e reconstruídos pelas diferentes comunidades humanas. Como afirma Silva (2004) “a ecologia profunda consiste num sistema derivacional, uma vez que assenta numa sistematização lógica, onde cadeias de premissas-conclusões geram sucessivamente normas mais precisas e concretas, que resultam em última instância de hipótese e premissas previamente aceites” (p. 214). Há, no entanto, uma linha condutora nestes princípios, que é a perspectiva de ver os humanos como parte integrante da natureza, como seus constituintes. Esta perspectiva levanta-nos algumas questões no que respeita à extensão das intervenções da humanidade no mundo natural. Trata-se de uma perspectiva ecocentrada onde o mundo natural é visto como uma extensão de nós mesmos e não como um recurso a explorar à exaustão. Numa mundividência gaiana, poderíamos afirmar que os humanos são constituintes do mega organismos Gaia.

Seguidamente transcrevemos os octo principia do MEP, tal como Silva (2004) os apresenta:

1. O bem-estar e a prosperidade da vida humana e não-humana na Terra têm valor próprio (valor intrínseco, valor inerente). Estes valores são independentes da utilidade do mundo não-humano para os propósitos da humanidade.

2. A riqueza e a diversidade das formas de vida contribuem para a realização destes valores, e são também valores em si mesmo.

3. Os seres humanos não têm o direito de reduzir esta riqueza e diversidade, excepto para satisfazer necessidades humanas vitais.

4. A prosperidade da vida e da cultura humana é compatível com um decréscimo substancial da população humana. A prosperidade da vida não-humana requer esse decréscimo.

5. A actual interferência humana com o mundo não-humano é excessiva, e a situação está a piorar rapidamente.

6. As políticas têm assim de ser alteradas. Elas afectam estruturas económicas, tecnológicas, e ideológicas básicas. A situação resultante da sua alteração será, assim, profundamente distinta da actual.

7. A mudança ideológica ocorrerá, sobretudo, no sentido da apreciação da qualidade de vida (mergulhando em situações de valor inerente) em vez de adesão a padrões de vida cada vez mais elevados. Haverá uma consciência profunda da diferença entre “grande” e “desejável”.

8. Os que subscrevem os princípios anteriores têm a obrigação de directa ou indirectamente tentarem instituir as mudanças necessárias (pp. 219-220).

O termo vida, usado no contexto do MEP, refere-se à ecosfera no global e não apenas à dos seres vivos que a constituem. Naess recorre à expressão “Terra viva” para elucidar a abrangência com que o termo vida é usado neste princípio.

Silva, J.M. (2004). Ecologia profunda: da ecofilosofia à política ambiental. In C. Beckert, & M.J. Varandas (Eds.), Éticas e políticas ambientais (pp. 211-226). Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa.

2006-04-03

O Movimento Ecologia Profunda (MEP)

Arne Naess - Fundador do movimento ecologia profunda.

O Movimento Ecologia Profunda (MEP) surgiu durante a década de 70 pelo génio do filósofo norueguês Arne Naess. No entanto, é pela mão de Bill Devall e George Sessions, ambos estado-unidenses, que as ideias e princípios quer do movimento quer da sua plataforma são dados a conhecer ao mundo. Daí que frequentemente, se pense que estes autores são os criadores originais do MEP. Este movimento surge como resposta filosófica e ética à crise ecológica que se tem vindo a acentuar quer no mundo físico quer nas nossas percepções deste. A designação ecologia profunda (deep ecology) surge por oposição ao termo ecologia superficial (shalow ecology) que Naess atribui aos aspectos mais técnicos e menos filosóficos da ecologia.

Por vezes mal compreendida, esta terminologia pretende apenas salientar as diferenças entre uma abordagem dos temas ecológicos na perspectiva mais filosófica e na perspectiva mais técnica. Assim, o termo profundo refere-se a uma abordagem reflexiva e crítica que, transcendendo as questões operacionais, conduz o indivíduo a questionar o seu papel e a sua condição no mundo, conduzindo a uma eventual construção da sua filosofia ecológica. Por outro lado o termo superficial refere-se às abordagens mais pragmáticas, muitas vezes Associa as ao desenvolvimento de tecnologias verdes que não revela preocupações de cariz afectivo ou filosófico na relação do indivíduo com o meio circundante. Ainda que Naess seja um pouco crítico em relação à abordagem da ecologia superficial, referindo que os seus objectivos são essencialmente “a saúde e riqueza das comunidades dos países desenvolvidos”, não deixa de valorizar os aspectos científico-tecnológicos da ecologia como nos é dado a perceber quando afirma que “o movimento ecologia profunda é suportado pelos resultados das investigações em ecologia e, mais recentemente, nos trabalhos da biologia conservativa”.

2006-03-25

James Lovelock

James Lovelock

Cientista britânico autor da Teoria de Gaia. Por detrás do cientista, em segundo plano na foto, podemos ver uma estátua de Gaia - deusa grega da Terra.

Gaia - um organismo vivo II

A aventura de Gaia contínua. Com o passar do tempo a comunidade científica começa a olhar para esta teoria científica com mais credibilidade. A pressão dos movimentos ecologistas não é isenta de responsabilidades nesta mudança de atitude. Alguns sectores mais ortodoxos adoptam a designação de Ciência Sistémica da Terra (Earth Systems Science) em detrimento do nome original. No entanto, nos meios verdes mantêm-se a designação original e, em alguns sectores mais espiritualistas, desenvolvem-se concepções panteístas e de revivalismo pelo culto da Terra, característico das sociedades xamânicas.

Mas, voltando aos aspectos materiais mais reducionistas, diferentes áreas do conhecimento debruçam-se em busca de evidências empíricas da existência do sistema gaiano. As buscas revelam-se frutíferas e algumas conjecturas são colocadas a debate. Assim, apercebemo-nos que as florestas tropicais, de que a amazónia é o exemplo mais conhecido e frequentemente chamada de pulmão da Terra, não têm um papel tão importante na reposição do oxigénio e na remoção do dióxido de carbono da atmosfera. Na verdade, um simples balanço mássico revela que a quantidade de O2 reposto e de CO2 removido pelos seres autotróficos amazonenses, é praticamente igual à que os seres heterotróficos consomem e expelem, respectivamente. Esta descoberta põe em causa alguns dos slogans mais usados na argumentação pela defesa das florestas tropicais. No entanto, um papel mais importante está reservado a estes mega-organismos. Eles assumem, juntamente com a albedo e com o efeito estufa, o papel de grandes reguladores do clima de Gaia. As florestas tropicais, através do processo de evapo-transpiração, são literalmente o sistema de ar condicionado do planeta.

O estudo sistémico da Terra continua a dar os seus frutos e surgem novas disciplinas científicas como a geofisiologia que se assume como o equivalente gaiano da fisiologia médica. A Teoria de Gaia é uma teoria cientificamente fundamentada com cada vez mais aceitação por parte da comunidade científica que constitui um motor de reflexão e mudança equivalente ao heliocentrismo coperniciano e ao evolucionismo darwiniano.

No século XV Copérnico obrigou-nos a reflectir sobre o papel central que a perspectiva aristotélica atribuía à Terra e à humanidade. No século XIX, Darwin questiona as pretensões criacionistas da tradição judaico-cristã. Neste novo século, que procede aquele em que a relação de parasitismo da humanidade a Gaia se desenvolveu ao ponto de se equacionar a ruptura definitiva do sistema, a Teoria de Gaia vem trazer uma nova luz na percepção e mediação da relação da humanidade consigo própria e com o planeta da qual é consitutinte.

2006-03-09

Gaia - um organismo vivo I

Na década de 70 James Lovelock, em colaboração com Lynn Margulis, avançou com a hipótese de Gaia. Esta hipótese surgiu na sequência de um pedido da NASA, ao referido cientista, para construir um método para a detecção remota de vida em Marte. Lovelock optou por abordar a existência da vida em Marte a partir da análise química da atmosfera marciana. O ar de um planeta sem vida deve estar próximo do equilíbrio químico, ao contrário do que acontece com a atmosfera de um planeta, como a Terra, onde a vida prospera. Num estado de equilíbrio químico em que um dos reagentes se encontra em excesso, não existem substâncias capazes de reagir entre si. Este método simples, rápido e económico não foi bem aceite por parte dos seus colegas de laboratório. Na verdade, não vemos aqui nada mais que a sociologia da ciência em acção. Aceitar este método será, antes de mais, vetar ao fracasso a investigação de processos mais trabalhosos de pesquisa de vida extraterrestre e consequentemente ao desinvestimento no projecto em que se encontravam inseridos.

Se compararmos as atmosferas de Marte, de Vénus e da Terra observamos que esta última é a única que contém, simultaneamente, gases oxidantes como o oxigénio (O2) e redutores como o metano (CH4) ou o hidrogénio (H2). Na verdade na atmosfera terrestre até o azoto (N2) usualmente considerando um gás inerte, constitui uma estranheza química na sua coexistência com o oxigénio. Tendo em conta a idade da Terra, estes dois gases já teriam reagido entre si originando diversos óxidos de azoto.

Se analisarmos a atmosfera de Marte observamos que na sua composição abunda o dióxido de carbono, muito pouco oxigénio, um pouco de azoto e árgon, um gás do 18º grupo da tabela periódica, sobejamente conhecido pela sua inércia química. Na atmosfera venusiana encontramos sobretudo dióxido de carbono e, em muito menor quantidade, azoto e árgon.

A Tabela seguinte ilustra o que acabámos de dizer.

Gases

Planetas

Vénus

Terra

Marte

Oxidantes

Oxigénio (O2)

---

21%

0,132%

Dióxido de carbono (CO2)

96.5%

360 ppm

95%

Redutores

Metano (CH4)

---

1,7 ppm

---

Hidrogénio (H2)

---

0,5 ppm

---

Inertes

Azoto (N2)

3,5%

78%

2,7%

Árgon (Ar)

70 ppm

0,93%

1,6%

Neste contexto, Lovelock argumenta que, a única explicação para a existência de tão peculiar atmosfera é a presença de vida na Terra. A coexistência na atmosfera de gases redutores como o metano deve-se à actividade de inúmeros microrganismos anaeróbios que habitam nos sítios mais recônditos de Gaia como os pântanos lodosos ou os intestinos dos mamíferos. Estes microrganismos, com a sua actividade biológica, repõem na atmosfera diariamente uma quantidade de metano idêntica à que reagiu com o oxigénio molecular aí existente. Assim, vemos surgir o primeiro indício da existência de Gaia um sistema aberto com elevados índices de organização, longe, do expectável, equilíbrio químico e que, por recurso a uma fonte de energia exterior (Sol), é capaz de o manter.

2006-01-25

Ecoliteracia - um palavrão??!!

David W. Orr

O termo ecoliteracia foi cunhado por David Orr na década de 80, do século XX. O termo, que surge da junção das duas palavras que constituem a expressão literacia ecológica, tem sido alvo de interpretações diversas, com diferentes graus de profundidade, mas com uma linha condutora: a necessidade de uma tomada de consciência da nossa profunda ligação e interdependência ao mundo não-humano, do qual somos parte integrante.
A concepção de ecoliteracia que Orr defende passa pelo conceito de biofilia. De acordo com este autor, biofilia é a afinidade que desenvolvemos pela vida, pela Terra, pelos
desertos e florestas, pelos rios e oceanos. Assim, nesta perspectiva, um indivíduo ecoliterado, além do saber científico-tecnológico relacionado com a preservação e recuperação dos ecossitemas, desenvolveu um respeito e uma afectividade com o mundo natural, que o leva a sentir-se parte integrante do mesmo ou, numa perspectiva gaiana inspirada por Lovelock, o indivíduo desenvolve uma percepção em que se vê como um constituinte de Gaia.