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2012-08-05

Ética universal, ética integral, ética da compaixão - Parte II

Artigo de opinião de Daniela Velho
Jurista e Membro do Conselho de Jurisdição Nacional do PAN

Leia aqui a parte I deste artigo.


Abordagem holística da questão humanitária, animal e ecológica
Parece cada vez mais incontornável a necessidade de o homem se ver a si próprio como um habitante deste planeta e deste cosmos a par de tantos outros que dele se distinguem (pelo menos ao nível mais grosseiro da nossa perceção) mas onde todos merecem um respeito e um reconhecimento de dignidade que transcende as fronteiras da espécie e dir-se-ia mesmo quaisquer fronteiras que sejam fruto da atribuição de um valor, que não é atribuível porque é inato, em função de um qualquer parâmetro de aferição de valores arquitetado à escala humana.
A visão que temos do mundo e dos seres deverá privilegiar a perspetiva da universalidade daquilo que é comum a todos e não da especificidade das características do homem.
É assim indispensável que tenhamos uma visão integrada e uma consciência da interdependência de tudo, reconhecendo a existência de um valor inerente das coisas, que subsiste por si e em si independentemente do entendimento que dele possamos ter.
Resta-nos pugnar pela necessidade de uma abordagem holística das questões humanitárias, animais e ecológicas em que a sustentação e preservação do habitat natural se mostra do interesse de todos e onde o homem reconhecendo a sacralidade de toda a vida com a qual mantem uma ligação de interdependência, busca harmonizar-se com a natureza e com os animais não-humanos numa relação de aceitação, respeito e cooperação.
Assim, e em termos práticos, já não é possível manter apartados movimentos que lutam por estas causas essenciais, mas que muitas vezes se autocondenam quando optam por ocupar campos de batalha parcelares num combate que é necessariamente global porque tudo quanto existe coexiste, tudo quanto vive convive em interdependência, jamais separado do que quer que seja.
Parece-nos então que, por exemplo, não se poderá lutar pela diminuição do aquecimento global, pelas florestas, rios e oceanos, pela perda da biodiversidade e da vida selvagem, se não se lutar simultaneamente pela dignidade dos animais humanos e dos não-humanos, porque o que está realmente em causa, se dermos oportunidade a nós próprios de olhar para esta realidade de uma forma integrada, é o futuro do Planeta com todos os elementos que o compõem!
No que toca à consideração que nos deve merecer a causa animal, não falamos apenas da necessidade impreterível e inadiável de suster as consequências altamente devastadoras que, por exemplo, a pesca ou produção agropecuária brutalmente intensiva, têm para a sobrevivência desta casa que tão compassivamente nos acolhe… falamos acima de tudo no respeito, apreço e estima que nos merecem os nossos irmãos não humanos que connosco partilham os mais belos dons que a natureza generosamente distribuiu, certamente na expectativa que os soubéssemos acolher e gratificar de uma forma que nos honrasse e nunca que nos deixássemos dominar, porque detentores do monopólio da força e do poder, por aquilo que de mais brutal e predatório existe em nós.

Espiritualidade ética baseada na compaixão
Por último não se pode deixar de sublinhar que não existe razão maior do que a razão do coração. E essa, só ao homem cabe desenvolver!
Neste sentido e sem pretender subalternizar a importância de outras formas de luta que visem a indispensável mudança das mentalidades por um mundo melhor e que devem ser geridas adequada e concertadamente, destacamos a tão preciosa mudança interior pela qual temos necessariamente que passar, acreditando que ainda é possível mudarmos o mundo, na consciência de que a mudança só em nós pode começar.
A nossa sociedade tecnológica e materialista não é capaz de dar uma resposta às dúvidas e questões éticas que cada vez com mais frequência se colocam ao nível do comportamento humano perante o outro.

Em resposta a esta grave carência da sociedade moderna assiste-se atualmente, a um revisitar de valores distinguidos e enaltecidos em antigas religiões e filosofias do mundo que nos ajudam a redescobrir aquilo que de mais essencial e profundo existe em nós.
Por contraposição ao ruído frenético e muitas vezes exasperante quase sempre presente nas nossas vidas, o homem busca e reconhece a importância da existência de espaços de silêncio onde possa usufruir, finalmente, da companhia de si próprio e do redescobrimento da sua verdadeira natureza.
A possibilidade de pacificação e tranquilização deste “estrondo” mental constante que esvazia as nossas vidas de sentido, surge-nos como a resposta que há tanto tempo buscávamos sem sucesso nos mais variados “sítios” com as suas impossíveis promessas de concretização de sonhos que jamais o poderão ser pela busca exterior, na medida em que todas as verdadeiras respostas vivem apenas em nós.
A obstrução da nossa capacidade de pensar e de agir de forma compassiva, ponderada e serena é um dos maiores males com que convivemos nos nossos dias e de consequências indescritíveis para tudo o que connosco interage.
A adoção de comportamentos automatizados e insensibilizados por parte do homem condena não só o próprio homem, como os animais e a natureza à extinção. Possuidores de tão grande poder de decisão sobre o próprio futuro e sobre o futuro do outro, está-nos eticamente vedada a possibilidade de nos desresponsabilizarmos perante os atos mecanizados, cruéis e destrutivos que todos os dias praticamos, nomeadamente quando decidimos o que comemos e bebemos, como nos vestimos e calçamos, como nos entretemos, como trabalhamos, como ganhamos e qual o uso que damos ao dinheiro que ganhamos, que tipo de produtos utilizamos e, enfim, qual o papel que decidimos interpretar, através de todas as escolhas que fazemos, no palco do mundo.
O período de metamorfose e transmutação dos valores e princípios éticos que vivemos nos nossos dias não pode ser apartado da transformação interior de que estamos a ser protagonistas e que parece vir na senda do fim de um certo receio em assumir a importância da espiritualidade nas nossas vidas e em cujo desenvolvimento estamos cada vez mais empenhados em apostar.
Só o fruto desse desenvolvimento espiritual - uma compaixão universal que não é mais do que o reconhecimento de que nada existe separado e que tudo é interdependente – pode conduzir à transformação que tão ardentemente almejamos para nós e para o mundo.

Créditos
Foto: Chihuli blown glass chandelier, por Steve Wall (Flickr).

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